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D e D

Tenho 27 anos e acumulei, durante esse tempo, uma vasta coleção de Derrotas e Desistências.

Quando eu era criança tinha um caderno onde escrevia “poesias”. Sim, entre aspas, afinal de contas escrever algumas frases rimando “amor” e “dor” não é exatamente digno de se ingressar na Academia Brasileira de Letras. Embora fossem simples e infantis, enchiam a mim e aos meus pais de orgulho, lembro de acompanhar minha mãe num médico (ou massagista, ou esteticista, sei lá) e ela mostrou o meu inseparável caderninho de poesias para o profissional, dizendo que um dia eu escreveria um livro.
Fiquei toda cheia de mim.
O tempo passou, o dom de escrever – e por vezes a vontade – também e nada de livro.

Sempre fui e continuo sendo louca por animais. Tocar um cão, um cavalo ou um gato me transmite uma energia incrível, sinto uma necessidade quase física de estar em constante contato com os peludos. Nada é mais sincero do que um animal que vem correndo em sua direção quando você se aproxima, quando dirige à você um olhar que é um misto de adoração, respeito e sabedoria plena, e só os muito abençoados sabem o que é ser objeto de amor de um animal.
Resolvi que seria veterinária quando crescesse. Teria como profissão uma coisa que me trazia prazer e poderia ajudar os meus mais honestos amigos quando eles mais precisassem de mim, ou seja, quando estivessem fracos, doentes, frágeis.
Um veterinário conhecido da família soube desse meu sonho em um dia que talvez tivesse perdido um animal, ou que a sua vida pessoal estivesse atravessando problemas e me disse que seguir essa profissão era mais um desgosto do que uma felicidade, ou alguma coisa assim.
Nunca cheguei nem mesmo a prestar vestibular para esse curso.

Me achava uma pessoa muito criativa. Engraçada, tinha algumas “tiradas” que julgava incríveis. Pensei por um tempo em fazer marketing, trabalhar em uma agência, criar campanhas, estratégias de venda, enfim… Desisti com o tempo também. Nunca seria um Washington Olivetto nem um Hans Donner mesmo…

Paquerei um tempo o Direito, meu pai advogado me deu força, ficou todo empolgado e orgulhoso da filha seguir a sua profissão.
Me julgava inteligente, politizada, informada. Tinha certeza que me daria super bem na profissão, seria uma promotora ou juíza excepcional. Fora que eu queria fazer faculdade na São Francisco, lógico.
Saindo do terceiro colegial prestei vestibular para a Unesp, em Direito, por dois anos, e não passei.
Na terceira tentativa dei uma leve desistida do Direito e resolvi prestar Psicologia, e também não passei.

Abri mão da faculdade pública e prestei, enfim, Direito em uma faculdade particular. Fui admitida e cursei toda a graduação como uma aluna mediana. Tive e cumpri umas dependências, me apaixonei pela matéria Direito do Trabalho e foi exatamente nela que tive maiores dificuldades. Sou formada desde 2009, ainda não prestei o maldito Exame de Ordem e não tenho nem ânimo de prestar, estando ciente dos reveses da profissão.

Já pensei em mudar o foco para Gestão de Recursos Humanos, Serviço Social, Jornalismo. Já desisti de tudo.

Tudo isso, essa retrospectiva, esse histórico de incríveis fails passou pela minha cabeça ontem, antes de dormir e além de atrasar, perturbou meu sono. Estou desanimada, desgostosa da minha vida, da minha realidade.
A Fernanda que eu sempre achei que era excepcional é simplesmente mediana e sempre foi. E ser mediano é ser ordinário, simples, sem sal.
Prazer, Fernanda. Insossa, derrotada e desistente.